Essa pandemia não é uma licença estendida (por Daphne S. Ling)

Traduzido por: Clara Ramos, Túlio Franco e Victor Pimentel

Publicado originalmente em: https: //www.nature.com/articles/d41586-020-01591-3

[Daphne S. Ling é doutoranda em neurociências pela University of British Columbia, Vancouver, Canadá. Você pode encontrá-la no Twitter @daph_ling.]

Piadas sobre produtividade escondem a toxicidade da cultura acadêmica “sempre disponível”, diz Daphne S. Ling

Blog - LEIC [2].jpgAuto-isolamento não é um “retiro de trabalho” – então não se sinta na obrigação de tratá-lo dessa forma. Credit: Emilija Manevska/Getty

Usuários perspicazes da internet têm feito comentários espirituosos sobre produtividade na era do COVID-19. Isaac Newton descobriu a gravidade e inventou o cálculo quando ele estava isolado durante a praga, eles disseram; Shakespeare, para não ficar pra trás, escreveu várias peças. Uma outra brincadeira que está circulando diz que as únicas pessoas no mundo que se beneficiam desta pandemia são os acadêmicos porque eles podem, finalmente, escrever. Nós todos podemos usar de algum humor em nossas vidas, mas “piadas” neste estilo são nocivas na academia, onde a mensagem subliminar é, com muita frequência, “você não está fazendo o bastante”.

Acadêmicos são pessoas também. E como todo mundo nesses dias, nós estamos cansados, dormindo mal, apavorados, solitários, socialmente isolados, tristes, preocupados e com a saúde prejudicada – condições que comprometem a qualidade de nosso trabalho e a clareza de nosso pensamento. Não é nenhuma coincidência o fato de que está muito difícil achar motivação para trabalhar ou completar alguma coisa que era feito sem esforços anteriormente.

Muitos de nós estão lutando. Professores assistentes em via de efetivação estão preocupados sobre como a paralisação afetará suas oportunidades profissionais, estudantes de graduação estão preocupados com dinheiro e o progresso de suas pesquisas, laboratórios tiveram que abater suas colônias de animais e todos estão ansiosos a respeito do financiamento de bolsas. Aqueles no mercado de trabalho – dos recém-formados aos professores adjuntos – estão vendo ofertas de trabalho serem rescindidas ou postos de trabalho desaparecendo completamente devido ao congelamento das contratações.

Muitos de nós também estão lidando com moradias precárias, insegurança financeira e alimentar, cuidados inesperados com crianças e familiares, exacerbação de doenças físicas crônicas e dificuldades em relação a saúde mental, membros da família trabalhando nas linhas de frente e afastamento em relação a parentes e amigos. Nossas dificuldades, ansiedade, medo e tristeza são reais. Nem todos nós temos acesso aos mesmos sistemas de recursos e suportes, e nem todas as dificuldades de cada um são iguais. Mensagens depreciativas sobre produtividade são especialmente tóxicas para as pessoas que estão lutando com sua saúde mental e que foram isoladas de suas redes de apoio.

Minha “timeline” do Twitter é diariamente entupida de acadêmicos sofrendo pela sua culpa de não conseguirem ser mais produtivos. Nossa cultura de estarmos “sempre disponíveis” vem com um mantra: publique ou pereça.

Mas agora, mais do que nunca, é tempo de focar no autocuidado em vez de na produtividade. Este não é o momento de sugerir, nem mesmo brincando, de que esta é uma oportunidade de fabricarmos  nosso melhor trabalho. Trabalhar de casa durante uma pandemia não é nem licença estendida, tampouco o trabalho nosso de cada dia. E nós precisamos parar de tratar como se fosse.

Por isso, se esforce em assar aquele pão bonito. Ajude suas meias perdidas a reunirem-se com suas almas gêmeas. Lamente suas perdas, sejam lá quais forem. Dê um desconto para você mesmo. E, por favor, vamos cancelar 2020 completamente. Está tudo bem não querer trabalhar. E está tudo bem falar isso.

Estamos testemunhando a revolta das elites por Arjun Appadurai

Traduzido por: Leonardo Carbonieri Campoy

Publicado originalmente em: https://graduateinstitute.ch/communications/news/revolt-elites?fbclid=IwAR0uv-lx6XP0WWstG6X9Z1n4uSHsMggV65ms6JmGaFL-8SJYADxCAfvUSv0

A revolta das novas elites é contra a democracia, mas a inversão é a de que é feita em nome do povo.

José Ortega y Gasset é um pensador do século XX em grande medida esquecido, um inusitado filósofo espanhol cujo trabalho de ciência social mais importante, a Revolta das Massas, expressou seus receios sobre um mundo no qual indivíduos liberais estavam desaparecendo e o “homem da massa” estava surgindo.

A ideia de homem da massa de Ortega não era uma imagem do pobre, do destituído ou da multidão proletariada, mas de uma massa do homens medianos que tornaram-se semelhantes pelos seus gostos, disposições e valores, e não por serem desapropriados. Assim, Ortega assemelha-se mais aos não tão antigos críticos norte-americanos dos homens em “terno cinza de flanela”[1] do que com os críticos da Escola de Frankfurt da sociedade de massa. De todo modo, Ortega foi um dos primeiros a perceber nas massas, de qualquer tipo, uma revolta contra os ideais liberais do século XIX.

Volto a Ortega agora porque penso que o século XX esgotou as principais formas de revolta de massa e que entramos em uma nova época caracterizada pela “revolta das elites”. Essas elites em revolta são aquelas que apoiam, cercam, promovem e elogiam as novas autocracias de Narendra Modi, Donald Trump, Recep Tayyip Erdogan, Jair Bolsonaro, Boris Johnson, Viktor Orbán e vários outros que criaram o que poderia ser chamado de “populismo de cima” – quando as pessoas são ferramentas eleitorais para uma erupção da democracia.

ortega
José Ortega y Gasset (1883-1955)

Por que chamar esse comportamento das novas elites autocráticas de “revolta” ao invés de simplesmente capitalismo predatório, carisma, neoliberalismo em sua última roupagem, capitalismo do desastre, todos esses termos já disponíveis? Quem são essas novas elites e contra quem estão se revoltando?

Primeiro, eles estão se revoltando contra todas as outras elites que desprezam, odeiam e temem: elites liberais, elites midiáticas, elites seculares, elites cosmopolitas, elites de “Harvard”, elites WASP[2], elites econômicas mais antigas, intelectuais, artistas e acadêmicos (essas categorias são um universo do qual diferentes populistas nacionais escolhem os termos nacionais e culturais apropriados). Portanto, uma elite que disfarça seu próprio elitismo em um discurso antielitista.

Segundo, essa revolta é contra todos aqueles que se acredita que teriam traído as elites reais e conquistado poder ilegitimamente: negros nos EUA, muçulmanos e secularistas na Índia, pessoas de esquerda e LGBT no Brasil, dissidentes, jornalistas e ativistas de ONGs na Rússia, minorias religiosas, culturais e econômicas na Turquia, imigrantes, trabalhadores e sindicalistas no Reino Unido. Essa é uma revolta daqueles que pensam que são a verdadeira elite contra quem consideram usurpadores ou elites falsas.

Terceiro, a revolta dessas novas elites é contra os grilhões que os ataram na época da democracia liberal. Eles odeiam liberdade, igualdade e fraternidade, exceto para eles mesmos. Eles odeiam freios e contrapesos, que consideram restrições ilegítimas à sua liberdade de agir sem restrições. Eles odeiam regulações de qualquer tipo, especialmente as de privilégios corporativos, as quais entendem como uma conspiração contra o capitalismo, que tomam, por sua vez, como uma jurisdição privada. Acima de tudo, eles odeiam a racionalidade deliberativa e de procedimentos, uma vez que envolvem escuta, paciência e aderência a racionalidades coletivas. Eles também não acreditam na separação dos poderes, exceto quando seus amigos controlam o legislativo e o judiciário.

Isso significa, basicamente, que a revolta das novas elites é contra a democracia, mas a inversão é que essa revolta é feita em nome do povo. Em outras palavras, a ideia moderna de povo foi completamente apartada das ideias de demos e democracia. Trata-se de uma revolta – no sentido de que insurgências para capturar o poder são sempre revoltas – mas não de uma revolução, voltada a mudar algo na ordem fundamental do governo ou da economia. Essa revolta é um esforço de uma elite para substituir outra.

Tudo isso pode parecer excessivamente genérico ou historicamente familiar se nós não fizermos algumas perguntas sociológicas. Qual é a natureza dessa nova elite? Quem define suas condições de entrada? Quem fala por ela? Quais são suas raízes sociais? Essas questões nos trazem rapidamente para Estados e sociedades específicos.

No caso dos Estados Unidos, a elite da qual Trump é porta-voz e que compartilha com ele uma trajetória histórica similar: eles não alcançaram os estratos acadêmicos mais altos, eles são empreendedores digitais ou políticos, eles são líderes republicanos no Senado, o lado republicano na câmara dos deputados e a escória do Tea Party[3] em todos os níveis de política. Ademais, eles incluem os CEOs mais megalomaníacos e neofascistas (incluindo ícones do Vale do Silício como Peter Thiel[4]), a grande maioria da mídia televisiva e radiofônica e a extensa rede de doadores, igrejas e pastores racistas e gananciosos. Adicione-se a este grupo alguns malandros carreiristas dos principais think-tanks[5] de direita.

No centro desta rede de elites sem raízes culturais óbvias, status ou história, estão redes secretas tais como a Sociedade Federalista[6], com ligações com grupos transnacionais como a Opus Dei. São redes de oportunismo, ganância e avidez de lucro sem quaisquer outros valores ou conexões tradicionais.

Uma imagem similar poderia ser feita das elites do atual governo na Índia, abertamente desdenhoso em relação a qualquer instituição democrática a não ser as eleições. Ele é composto por economistas medianamente treinados, bandidos de carreira, magnatas de negócios cleptocráticos que operam por meio de monopólio, lobby e corrupção direta, e a nova classe de políticos e legisladores desavergonhadamente criminosos. A revolta dessa elite é contra todas as pessoas ou grupos associados ao socialismo, secularismo e pluralismo nehruviano[7].

É uma elite que acredita que a direita Hindu (seu próprio clube) é a salvadora adormecida da história indiana, acordando após o longo sono dos domínios de Mughal, da Grã-Bretanha e do Congresso[8], uma aliança forjada no cadinho de ideologias, políticas e pogroms anti-muçulmanos. Não há unidade de classe verdadeira para essa elite revoltosa a não ser o controle dos meios de impunidade política, social e econômica. Assim como os parceiros de Trump, essa é uma elite de oportunismo, lubrificada pelo desprezo por instituições participativas de todos os tipos.

Apesar de não conhecer o suficiente sobre as origens sociais e os ódios de estimação do pessoal de Erdogan, Putin, Bolsonaro e Duterte, estou preparado para especular que cada uma dessas elites revoltosas tem um perfil similar: ressentimento em relação às elites culturais e sociais tradicionais, desprezo pelo procedimentalismo liberal, ódio por intelectuais, acadêmicos, artistas, ativistas, socialistas, feministas, admiração pelo capitalismo, desde que seja regulado para favorecê-las, e um ódio à democracia combinado com sua devota busca pelo eleitor (e não pelo povo, como dizem).

Orbán acabou de declarar seu poder eterno e absoluto na Hungria, Trump exigiu que seu nome fosse impresso nos cheques de socorro pela COVID-19 e disse que ele pode usar poderes emergenciais para fazer o que bem deseja na crise atual. Modi declarou-se, na prática, acima da constituição da Índia, publicamente compartilhou da causa de Bolsonaro, Trump e Netanyahu e usou a crise do COVID-19 para estender a toda a Índia políticas de toque de recolher, espancamentos por policiais, prisões sem motivos reais e repressão generalizada, táticas essas testadas anteriormente em Kashmir. Em todos esses movimentos, seus líderes sustentam-se em uma rede de simpatizantes e colaboradores que acreditam que vão prosperar se agirem de acordo com seu Líder Supremo.

Portanto, se as elites que caracterizam as novas autocracias populistas do mundo são elites “populistas de cima” revoltando-se contra elites anteriores, revoltadas com a democracia liberal, como dar conta de seus seguidores, seus eleitores e suas bases, o “povo” em nome do qual, e com seu caloroso consentimento, eles desfazem muitas tradições, crenças e estruturas democráticas?

Tem algumas respostas conhecidas para essa questão bastante perturbadora. Uma é a de que esses autocratas entendem e usam instrumentos de afeto (sentimentos de amor, perda, sacrifício, ódio e raiva) enquanto seus oponentes estão à deriva no mar de argumentos quase-acadêmicos sobre conceitos, normas e lógica que perderam sua capacidade de mobilização popular. A segunda é a de que existe algo sobre o aparecimento global de tecnologias da aspiração (propaganda, bens de consumo, cultos de celebridade, lucros corporativos) que fez com que as classes pobres e subalternas ficassem impacientes com a lentidão dos processos deliberativos liberais. Elas querem prosperidade e dignidade agora e esses líderes prometem esses resultados para elas.

Outro argumento é o de que as classes mais baixas estão tão cansadas da exclusão, empobrecimento e humilhação que se identificam com seus lideres predatórios (os quais simplesmente fazem o que querem), tornando-os, assim, mais suscetíveis às distrações da etnofobia (contra muçulmanos, refugiados, chineses, ciganos, judeus, migrantes, dentre outros). Todos esses argumentos fazem sentido em alguns contextos nacionais.

Todavia, sugiro que o maior insight que Ortega y Gasset oferece é nos ajudar a ver que estamos no início de uma época em que a revolta das massas foi capturada, cooptada e deslocada pela revolta das elites. A coisa mais perturbadora nessa captura, como o uso contínuo das eleições pelos autocratas revela, é que as massas (seja lá quem são) vieram a acreditar que a revolta das novas elites é, de fato, a sua revolta e que tudo o que elas precisam fazer é torcer (e se possível emulá-los) por seus líderes demoníacos, os quais podem lhes oferecer uma solução mais rápida do que um esforço genuinamente popular ou insurrecional para mudar a ordem das coisas.

De certa maneira, as novas massas eleitorais começaram a sentir que os benefícios da predação de seus líderes logo chegarão para eles. O principal resultado dessa percepção é o de que as classes pobres e subalternas agora podem impunemente matar, mutilar e humilhar seus bodes expiatórios mais fracos. Todavia, a conquista de benefícios mais cotidianos – como empregos, assistência médica, renda mais alta e cidades mais seguras – ainda exige paciência sem fim daqueles que estão na base da pirâmide. Mas eles vivem na esperança de que, se o ódio chega até eles, talvez a prosperidade também pode chegar.

Appadurai
Arjun Appadurai    (1949)                

Arjun Appadurai é antropólogo e professor em Nova Iorque e Berlin. Seu livro mais recente, escrito em conjunto com Neta Alexander, é Failure (Londres: Polity Press, 2019). No Brasil, uma coletânea de artigos seus foi publicada com o título de A vida social das coisas (Niterói: Eduff, 2006).

Notas

[1] The man in the gray flannel suit (o homem em terno cinza de flanela) é um livro escrito por Sloan Wilson, publicado em 1955 e adaptado para o cinema, com o mesmo título, no ano seguinte. A história narra o drama de Tom Rath, um veterano da segunda guerra que tenta equilibrar a vida cotidiana de trabalhador, marido e pai de família com as lembranças traumáticas do conflito. O personagem foi tomado por sociólogos e críticos culturais como uma ilustração do homem norte-americano comum, submetido a um padrão de classe-média, mas incapaz de construir novos horizontes de vida, já que sentia-se emocionalmente corroído (N. do T.).

[2] WASP, sigla para White Anglo-Saxon Protestant (branco, anglo-saxão e protestante), refere-se à tradicional elite norte-americana (N. do T.).

[3] Tea Party (partido do chá) é um movimento conservador nos Estados Unidos que reúne, além de vários outros grupos sociais, a ala mais radical à direita do Partido Republicano. Apesar de levar partido no nome, não se trata de um partido institucionalizado (N. do T.).

[4] Peter Thiel, nascido na Alemanha e com cidadania norte-americana, é um investidor, empreendedor e diretor-executivo de empresas tecnológicas vinculadas a negócios digitais. Esteve envolvido na fundação da PayPal e na direção financeira do Facebook. Thiel é filiado ao Partido Republicano (N. do T.).

[5] Think-tank significa literalmente tanque-de-pensamento. É por essa expressão que centros de pesquisa, de elaboração de intervenções públicas, de ações de lobby e de orientação política são conhecidos nos Estados Unidos. São eminentemente particulares, alguns têm ligações com universidades e se espalham por todo o espectro político, da esquerda à direita (N. do T.).

[6] A Sociedade Federalista é uma instituição conservadora norte-americana que defende, em linhas gerais, uma interpretação literal da Constituição do país. Sua influência no mundo do direito é bastante significativa (N. do T.).

[7] Nehruvianismo é a tradição política que surgiu na Índia a partir do governo de Jawaharlal Nehru, Primeiro Ministro do país entre 1947 e 1964, etiquetada como uma proposta secular, aberta à diversidade cultural, desenvolvimentista e distributiva (N. do T.).

[8] Mughal é o império que dominou, entre outras regiões, o que é hoje a Índia entre 1526 e 1857. Assim, neste trecho, o autor está se referindo a um período de longuíssima duração, afirmando que a elite que sustenta Modi, o atual presidente indiano, se vê como o despertador de um sono político que começou em Mughal, continuou no período de domínio inglês (1858-1947) e prosseguiu no momento parlamentarista (1947-presente) (N. do T.).

“Fique em casa, fique saudável” é uma linguagem perigosa

Texto originalmente publicado no Ms. Magazine, no dia 03/04/2020.

Autora: Emily Yates-Doerr (professora assistente de antropologia na Universidade do Estado de Oregon) 

Tradução de Clara Ramos, Victor Pimentel e Túlio Maia Franco

 

Blog - LEIC (1).jpg

[Foto: auto-estrada no Sul da Califórnia (Russa Allison Loar)]

As expressões “Fique em casa” e “Fique saudável” reforçam concepções errôneas sobre como  muitas pessoas vivem – e correm o risco de estar fazendo mais mal do que bem. 

“Fique em casa, fique saudável” se tornou o slogan do momento.

A frase responde a necessidade evidente e urgente de reduzir o contato entre pessoas, para evitar que o novo coronavírus se espalhe mais rápido do que os nossos hospitais podem atender.

No entanto, isso pode ser um jeito descuidado de encorajar o distanciamento físico.

Sendo uma antropóloga da saúde especializada em entender como as pessoas interpretam as políticas públicas em saúde, estou preocupada com implicações sociais mais amplas da normalização das expressões “fique em casa” e “fique saudável”. Elas reforçam concepções errôneas sobre como várias pessoas vivem e correm o risco de estarem fazendo mais mal do que bem.

“Fique em casa”

Primeiro, vamos levar em consideração o “Fique em casa”. A falta de moradia não é o menor dos problemas, mas sim algo muito difundido nos EUA atualmente: mais de meio milhão de pessoas se tornam sem-teto toda noite – muitas das quais têm escondido sua precariedade. 

Eu dou aula em uma universidade muito procurada onde muitos estudantes aparentam ser abastados. No entanto, uma vez que é estimado que 14 -18 por cento dos estudantes de nível superior nos EUA experimentem a falta de moradia, eu sempre começo meus cursos com tours do nosso centro de recursos humanos, que oferece aos estudantes sem moradia chuveiros, lavanderias e comida. Pelo menos alguns de meus alunos inevitavelmente fazem uso desses serviços antes do período acabar.

A falta de moradia é também sentida mais intensamente por pessoas não-brancas. Esta disparidade importa na crise atual porque as pandemias espalham, além da doença viral, o racismo. O aumento de denúncias de crimes de ódio relacionados ao coronavírus torna especialmente crítico o uso da terminologia de prevenção a doença que não exacerbe as desigualdades raciais já existentes.

Até pessoas que não são sem-teto podem se sentir confusas sobre o lugar a que pertencem agora. A juventude LGBTQ+ que saiu do armário recentemente pode ser hesitante a retornar às suas residências onde precisa se manter no armário. 

Picos de violência doméstica na quarentena também estão tornando a casa um lugar mais inseguro do que um lugar protegido para muitos. E a mensagem para  “ficar em casa” pode soar muito diferente para as mulheres, que tiveram que lutar para sair de casa, do que para os homens.

Nós devemos usar uma linguagem que, quando endereçada ao COVID-19, reconheça as incertezas domésticas e as desigualdades históricas.

“Fique saudável”

Isso me leva ao “Fique saudável”. Embora isso possa soar inócuo, essa expressão coloca o encargo da saúde no comportamento individual, desviando a atenção das forças estruturais mais amplas que modelam o acesso a proteções de prevenção à doença, como o emprego e a segurança financeira.

Visto que o COVID-19 emergiu do subfinanciamento sistemático da infraestrutura da saúde pública, essa mensagem de responsabilidade pessoal é exatamente a pior  mensagem para se transmitir no momento.

Nós devemos também encontrar modos de desejar o bem-estar entre nós, que   reconheça que muitos de nós não estavam “saudáveis” antes do vírus começar a circular.

Em 2019, 56 por cento dos jovens universitários nos Estados Unidos reportaram que se sentiam desesperançosos, com 13 por cento considerando o suicídio, de acordo com o estudo realizado pela American College Health Association. Muitos estudantes vão à minha sala chorando porque estão sobrecarregados e ansiosos – e isso foi bem antes do COVID-19 entrar em cena.

Coletivamente, nossa saúde mental está prestes a ser extremamente desafiada. Este não é o momento de subestimar a importância do modo como mandamos mensagens sobre o vírus.

Pesquisadores sobre o direito dos deficientes tem desafiado a adoção da “saúde” como um status padrão.Políticas dissuasivas que estão atualmente em curso não priorizam a vida de pessoas com deficiência, tanto quando se trata do cuidado hospitalar, quanto em seus direitos educacionais. 

Cláusulas no recente pacote de incentivos coloca a Lei da Educação dos Indivíduos com Deficiências sob ameaça.Especialmente agora, nós não deveríamos usar  a frase “Fique saudável”, visto que isso apaga ou minimiza algumas pessoas com deficiência e o papel vital que elas têm em nossas comunidades.  

Blog - LEIC (2).jpg

Pode parecer que há problemas maiores para focar agora do que sutilezas da linguagem.

Todavia,uma lição para aprender com o COVID-19 é que as pequenas coisas podem ter efeitos grandes e mortais. Nós devemos ser absolutamente cautelosos em limitar a interação física com os outros, fazendo tudo que podemos para “achatar a curva” da transmissão viral. Nós devemos, ao mesmo tempo, sermos cautelosos ao observar como a linguagem informal do “Fique em casa, Fique saudável” negligencia a realidade da vida de muitas pessoas.

Precisamente porque esse vírus é mortal que é crucial considerar como essa mensagem desvaloriza as minorias e as comunidades vulneráveis que ela reivindica proteger. 

Se você é próximo de alguém, use, através de todos os meios, os termos que faça sentido para você. Mas em uma conversa informal, considere expressões que reconheçam como muitos de nós não estão, neste momento, bem de saúde ou se sentindo bem.

Explicando o Surgimento de Rituais do Coronavírus por Dimitris Xygalatas

Traduzido por Victor Pimentel, Túlio Franco e Clara Ramos.

Antropólogo esclarece como velhos e novos rituais podem fornecer uma sensação de conforto durante tempos de incerteza. Este artigo foi originalmente publicado no The Conversation e foi republicado no site Sapiens.

Roma
Pessoas em Roma, na Itália, vão às suas varandas, em um horário específico, para dar umas às outras uma salva de palmas durante a quarentena. Foto por Alessandra Tarantino/AP Photo

Em resposta à pandemia de coronavírus, muitas universidades norte-americanas  suspenderam todas as suas atividades. Como milhões de pessoas ao redor do mundo, as vidas de estudantes em todos os Estados Unidos mudaram da noite para o dia.

Quando encontrei meus estudantes para o que seria nossa última aula presencial do ano letivo, expliquei a situação a eles e perguntei se havia alguma dúvida. A primeira coisa que meus estudantes quiseram saber foi: “nós poderemos ter uma cerimônia de graduação?”.

O fato de que a resposta foi “não” foi a notícia mais decepcionante para eles.

Como um antropólogo que estuda rituais , ouvir esta questão vinda de tantos estudantes não foi uma surpresa. Os momentos mais importantes de nossas vidas – de aniversários e casamentos a formaturas e festas populares  – são marcados por cerimônias.

Rituais fornecem sentido e tornam estas experiências memoráveis.

O RITUAL COMO UMA RESPOSTA PARA A ANGÚSTIA

Antropólogos têm observado, já há muito tempo, que pessoas de diferentes culturas tendem a performar mais rituais em tempos de incerteza . Eventos estressantes como guerras, ameaças naturais e insegurança material são frequentemente associados a picos na atividade ritual .

Em um estudo conduzido em laboratório em 2015, meus colegas e eu descobrimos que, sob condições de estresse, o comportamento das pessoas tende a se tornar mais rígido e repetitivo – em outras palavras, mais ritualizado.

Rituais fornecem uma sensação de controle ao impor ordem no caos da vida cotidiana

A razão por trás desta predisposição reside em nosso esquema cognitivo. Nosso cérebro é programado para realizar previsões sobre o estado do mundo. Ele usa conhecimento prévio para dar sentido às situações atuais. Mas quando todas as coisas ao nosso redor estão mudando, a habilidade de fazer previsões é limitada. Isso causa a muitos de nós a experiência da angústia.

É aí que os rituais entram.

Rituais são fortemente estruturados . Eles requerem rigidez e devem sempre ser performados do jeito “certo”. E envolvem repetição: as mesmas ações são realizadas de novo e de novo e de novo. Em outras palavras, eles são previsíveis .

Assim, mesmo que não tenham nenhuma influência direta sobre o mundo físico, rituais fornecem uma sensação de controle  ao impor ordem no caos da vida cotidiana.

Pouco importa se essa sensação de controle é ilusória. O que interessa é que ela é uma  forma eficiente de aliviar a ansiedade.

Isso foi o que descobrimos em dois estudos que serão publicados em breve. Em Mauritius, nós vimos que os Hindus experimentam uma ansiedade mais baixa depois que eles performam rituais no templo, o que medimos utilizando monitores de frequência cardíaca. E nos EUA, descobrimos que estudantes judeus que frequentavam mais rituais de grupo tinham níveis mais baixos de cortisol, o hormônio do estresse.

RITUAIS FORNECEM CONEXÃO

Rituais coletivos requerem coordenação. Quando pessoas se juntam para performar uma cerimônia de grupo, elas podem se vestir da mesma forma, se mover em sincronia ou cantar em uníssono. E, agindo como um, elas se sentem um.

De fato, meus colegas e eu descobrimos que o movimento coordenado faz com que as pessoas confiem mais umas nas outras e até mesmo aumenta a liberação de neurotransmissores associados à criação de laços sociais.

india
Cerimônias, como os rituais de casamento de Bengali, reúnem as pessoas e fortalecem laços. Foto por Jibu. K. Rajan/Wikimedia.

Pelo alinhamento de comportamento e pela criação de experiências compartilhadas, os rituais produzem uma sensação de pertencimento e identidade comum que transforma indivíduos em comunidades coesas. Como experimentos de campo mostram, participar de rituais coletivos aumenta a generosidade e até mesmo torna as frequências cardíacas das pessoas sincronizadas.

FERRAMENTAS PARA RESILIÊNCIA

Não é surpreendente, portanto, que pessoas ao redor do mundo estejam respondendo à inédita crise do coronavírus através da criação de novos rituais.

Alguns desses rituais destinam-se a proporcionar uma noção de estrutura e reivindicam a sensação de controle. Por exemplo, o comediante Jimmy Kimmel e sua esposa encorajaram aqueles que estão em quarentena a realizarem as  “sextas-feiras formais”[1] , se vestindo para jantar mesmo se estiverem sozinhos.

Outros descobriram novas formas de celebrar rituais antigos. Quando o New York City Marriagen Bureau [2] fechou devido à pandemia, um casal de Manhattan decidiu “juntar os trapos” sob a janela do quarto andar de seu amigo ordenado, que oficializou a cerimônia de uma distância segura.

Enquanto alguns rituais celebram novos começos, outros servem para realizar encerramentos. A fim de evitar a disseminação da doença, famílias de vítimas do coronavírus estão fazendo funerais virtuais . Em outros casos, pastores ministraram os últimos ritos  por telefone.

As pessoas estão inventando uma série de rituais para conservar um sentido mais amplo de conexão humana. Em várias cidades europeias, pessoas começaram a ir para suas varandas ao mesmo tempo todos os dias para aplaudir os profissionais da saúde  pelo seu trabalho incansável.

Em Mallorca, na Espanha, a polícia local se reuniu para cantar e dançar nas ruas para as pessoas em quarentena. E em São Bernardino, Califórnia, um grupo de estudantes secundaristas sincronizou suas vozes remotamente para formar um coral virtual.

Rituais são uma parte antiga e inextricável da natureza humana. E ainda que possam assumir formas diferentes, eles permanecem sendo uma ferramenta poderosa para promoção de resiliência e solidariedade. Num mundo cheio de variáveis em constante mutação, o ritual é uma constante muito necessária.

NOTAS DOS TRADUTORES

[1] Tradução de”formal fridays“, trata-se de estimular que as pessoas se arrumem como se fossem sair como em uma sexta-feira normal, mesmo que fiquem em casa.

[2] Trata-se de um órgão oficial que funciona como um cartório voltado especificamente para assuntos de casamento, união estável, etc.

O que podemos aprender sobre “cuidado” com a epidemia de corona vírus – por Natália Fazzioni

xHEALTH-CORONAVIRUS_BRAZIL-FAVELA-GEE4HM5EC.1.jpg.pagespeed.ic.iapJM8RUkf
Criança ajusta máscara de proteção contra o coronavírus na favela de Paraisópolis, em São Paulo, uma das maiores do país Foto: AMANDA PEROBELLI / REUTERS

Desde que a quarentena teve início, eu acordava e dormia todos os dias com uma frase ressoando em meus ouvidos: “Por que estamos isolados?”. Não era uma pergunta que eu me fazia de forma genuína (pois eu compreendia plenamente as razões e necessidade do isolamento social para conter a epidemia de corona vírus), senão uma frase que me remetia a algum livro, filme, artigo, epígrafe e da qual aquele contexto todo me fizera lembrar. A lembrança me atormentava pois, entre entender como seria minha nova rotina em casa – com tarefas domésticas, prazos de trabalho e um filho pequeno – eu desejava obsessivamente me recordar de onde vinha aquela frase. Foi em uma manhã, quando entrei no banheiro e pude desfrutar de alguns poucos minutos de “auto-isolamento” dentro de minha própria quarentena, que me lembrei.

“Por que estamos isolados?” foi uma pergunta feita por Paulo, o pai de uma criança afetada pela síndrome congênita do Zika no sertão de Pernambuco, à antropóloga Debora Diniz. Não sem razão, minha memória, despertada pela palavra “isolamento”, havia me remetido a um livro sobre outra epidemia. No livro Zika: do sertão nordestino à ameaça global (que tive o prazer de resenhar e publicar aqui), a autora desenvolve alguns argumentos a partir deste questionamento. Paulo é pai do bebê chamado pela autora de “gêmeo solitário”, por ter sido afetado pelo Zika, enquanto seu irmão nasceu aparentemente sem nenhuma sequela. O pai é um interlocutor que faz perguntas importantes e diferentes dos outros para a autora e busca entender por que a epidemia atingiu sobretudo o nordeste, sobretudo o sertão, sobretudo os mais pobres. Ele lembra que seu filho certamente não foi o primeiro em sua cidade a apresentar os traços típicos da síndrome congênita do Zika: outros que nasceram antes, em famílias muito mais pobres, já apresentavam as mesmas características e nunca receberam diagnóstico nenhum, pois não puderam se deslocar até Recife, onde seu filho obteve a confirmação da síndrome e foi acompanhado. A Zika, como lembra a autora, é uma epidemia cujo foco no Brasil deu-se no Nordeste e cujas chances de espalhamento pelo mundo de forma generalizada e massiva não passou de uma ameaça. A pergunta sobre o isolamento, portanto, refere-se à condição social e a um lugar no mundo do filho de Paulo e daqueles que foram e são majoritariamente afetados pelo vírus da Zika: nordestinos, sertanejos, periféricos, favelados, pobres, negros.

No final de 2016, publiquei também neste blog, um pequeno texto sobre como a epidemia de Zika havia atravessado meu próprio campo de pesquisa, no conjunto de favelas do Complexo do Alemão. Embora não fosse o alvo de minha reflexão, as poucas mulheres que conheci no Alemão afetadas pela Zika durante a gravidez e cujos filhos nasceram com a síndrome congênita, me levaram a refletir sobre o tema. Elas estavam “isoladas” em tantos sentidos: porque viviam em uma favela com ausência de estrutura urbana básica, porque não se encaixavam nos benefícios sociais existente na época, porque os médicos sabiam pouco ou nada sobre a doença de seus filhos, porque haviam deixado de trabalhar para cuidar daquelas crianças e porque muitas haviam sido abandonadas pelos companheiros após o nascimento dos filhos, entre outros motivos. E diante disso era quase impossível para mim imaginar como o cuidado com aquelas crianças se efetivava.

Passei a então me perguntar sobre a noção de cuidado e a observar como o cuidado, não só com crianças, mas também com idosos, deficientes e outros que necessitavam de forma mais intensa dessa disposição e prática, se organizava naquele contexto. Quais eram os atores envolvidos nesse cuidado? As principais dificuldades e formas de superá-las? De que forma ele se estabelecia? Quais sentidos lhe eram atribuídos?

Entendi, de um modo mais geral, que não havia uma única lógica ou princípio universal que organizasse estas experiências. Os arranjos de cuidado, como denominei as experiências que observei, eram muitos e variados, envolviam diferentes atores sociais, diferentes escalas de proximidade e de tempo (Fazzioni, 2018). Gosto sempre de me lembrar do caso de Dona Josefa (sobre o qual publiquei aqui). Uma senhora com Alzheimer em estado vegetativo que precisava ser hospitalizada. Ela vivia em uma casa de dois cômodos, em um beco, com sua irmã, o marido da irmã, seus filhos e netos. Sua cama era o sofá da sala, espaço que dividia com algumas das crianças que também dormiam ali em um colchão. Brincar com o corpo quase não vivo de Josefa era uma atividade que os divertia eventualmente, pintando suas unhas com esmaltes coloridos. Sua irmã se sentia sobrecarregada com seus cuidados que eram muitos e difíceis, mas sua presença na casa era estimada por todos, não queriam deixá-la em um hospital morrendo sozinha. Desidratada e desnutrida, o médico de família que a acompanhava queria interná-la após a visita. Mas como levá-la se, naquele dia, ele era o único médico presente na unidade e não poderia acompanhá-la na ambulância? A maior parte dos médicos não durava nem três meses naquela unidade e logo saíam. Se a UTI móvel não chegaria até o beco não acessível para carros? Se a família não possuía recursos próprios para levá-la de táxi?

A solução só foi possível graças aos diferentes arranjos que profissionais de saúde, acostumados a trabalhar em um sistema com tantas insuficiências e uma família e vizinhos, acostumados a viver num lugar com outras tantas, conseguiram mobilizar. Josefa foi carregada em uma cadeira de plástico por vizinhos até a rua carroçável mais próxima, onde um outro vizinho com carro a levou até a unidade de saúde, na qual passou a receber soro injetável enquanto aguardou pela transferência ao hospital.

Arranjar foi uma palavra que aos poucos, pude perceber, sempre se impunha às dinâmicas de cuidado naquele espaço. “Arranjar”, “dar um jeito”, “resolver”, ainda que improvisadamente, um problema que se impõe cotidianamente. Muitas vezes o termo aparecia em forma de pergunta, como um pedido de ajuda. “Fulano, você pode me arranjar: um dinheiro, um martelo, um pouco de sabão em pó, um material para fazer um curativo?”. As possibilidades são infinitas. A longo prazo, o arranjar pode remeter a algo que obtivemos em algum momento e que nos acompanha por um período da vida: um casamento, uma casa, um trabalho. O arranjo nesse caso tem menos a ver com a posse daquilo que foi arranjado e mais com “arranjos” de longa duração, em geral os que são definidos pelas relações de parentesco, mas também com arranjos de média duração (ajuda pontual de um parente ou um vizinho, trabalho, serviço de saúde), e, finalmente, outros de curta duração (um auxílio para descer uma escada, uma carona, um empréstimo de dinheiro, um prato de comida). Mais do que isso, no entanto, o arranjo quase nunca depende unicamente do indivíduo, prescindindo de relações baseadas em vínculo, reciprocidade, afetos e também trocas monetárias (embora menos presentes nesse contexto). Ele nos diz sobre ausência de direitos básicos em nossa sociedade e sobre a forma que nos relacionamos uns com os outros.

Há tempos, as ciências sociais têm reforçado a importância de questionarmos a ideologia do sujeito liberal, marcada por uma noção de liberdade caracterizada por uma sensação de autonomia totalmente ilusória. Ao olharmos para o cuidado, cientes de nossa vulnerabilidade, entendemos que ele não é marcado por uma lógica de dependência versus autonomia, mas sim de interdependência e reciprocidade, como sugere Joan Tronto (2009). Precisamos ser cuidados em algum momento de nossas vidas, oferecer cuidado em outras, cuidar de si sempre: sem isso não nos sustentamos enquanto indivíduos, mas igualmente enquanto sociedade. Trata-se, portanto, de uma mudança de olhar para o mundo, a partir de uma nova ética, baseada em outros princípios, como afirma Annemarie Mol:

(…) a ética do cuidado nunca procurou responder ao que é bom, muito menos fazê-lo do lado de fora. Em vez disso, sugeriu que as práticas de cuidado envolvem uma modalidade específica de lidar com questões relacionadas ao estar bem. Na ética da justiça, a ética é considerada uma questão de ordenar princípios por meio de argumentação. Os princípios éticos adequados são gerais, ou melhor ainda, universais. Na ética do cuidado, enfatiza-se que, na prática, os princípios raramente são produtivos. Em vez disso, soluções locais para problemas específicos precisam ser encontradas. Eles podem envolver a justiça, mas outras normas (como honestidade, gentileza, compaixão, generosidade) podem ser iguais ou mais importantes (MOL, 2010, 13)

A biomedicina nos promete um cuidado racional, objetivo, individualizado, que cada vez mais nos proporciona uma sensação de imortalidade, de controle sobre o mundo, sobre a natureza e suas variáveis. Precisamos da biomedicina e mais do que nunca se faz necessário valorizar seus esforços nesse momento. Porém, “enquanto a vacina não chega”, continuaremos apostando em um modelo de cuidado e olhar para o mundo baseado nestes princípios? Quantos arranjos são necessários cotidianamente para que o cuidado, com nós mesmos e com os outros, ocorra? Por que não falamos publicamente sobre isso?

Em tempos de quarentena, a classe média se esforça para fechar a porta do “home office” para que as crianças não interrompam a reunião de trabalho. Essa cena, escancarada pelo momento atual, na realidade ocorre todos os dias, por exemplo, quando respondemos aos nossos supervisores que “tivemos um problema pessoal”, porque seria uma exposição desnecessária dizer “meu filho teve diarréia” ou “minha mãe não está bem”’. O cuidado é uma atividade e uma disposição essencial ao mundo, com a qual nos deparamos diariamente – e quanto mais desigualdades enfrentamos, mais árduo ele se torna – entretanto é minimizado, muitas vezes, a um “probleminha pessoal”, uma questão individual.

Em uma discussão mais clássica sobre o tema, algumas análises feministas buscaram valorizar a dimensão de trabalho implicada em todas as ações de cuidado, profissionais ou domésticas, entendendo o cuidado sempre dentro de uma dimensão de trabalho, o “trabalho do care” (Hirata, Guimarães, 2012). Tais discussões tiveram importantes desdobramentos ao evidenciarem a existência da chamada “dupla jornada” na rotina de muitas mulheres trabalhadoras, exclusivamente responsáveis pelos cuidados com crianças e idosos.

Não há dúvidas de que o cuidado seja hoje (e desde sempre) uma tarefa socialmente feminina, o que acirra profundamente desigualdades de gênero. Mas será que é necessário, para que o cuidado seja valorizado, que ele seja compreendido em termos de trabalho? Quando cuidamos dos nossos, é somente isso que o cuidado significa, um trabalho? Não seria essa uma atividade intrínseca a nossa existência no mundo? Não é isso que estamos todos prioritariamente fazendo agora, quando nos vemos tão fragilizados diante de uma ameaça à vida? Vale lembrar aqui do já clássico texto de bell hooks, onde a autora argumenta que a casa e o cuidado eram também lugares de resistência para muitas mulheres negras americanas, diante de tantas outras opressões (hooks, 1990).

Autoras como Tronto e Mol, entre outras, têm apontado para a urgência de compreendermos o cuidado não como algo limitado à esfera privada da vida, mas sim enquanto um debate público, necessário para a efetivação de uma sociedade justa e democrática. Como lembra Judith Butler ao refletir sobre a noção de precariedade: “não há vida sem necessidade de abrigo e alimento, não há vida sem necessidade de redes mais amplas de sociabilidade e trabalho, não há vida que transcenda a possibilidade de sofrer maus tratos e a mortalidade” (Butler, 2015, p. 45). Somos, portanto, todos vulneráveis diante da morte, que como lembrou “Bifo” (em texto publicado aqui) é o que faz dos humanos vivos, embora tenhamos tentado negar isso por tanto tempo.

Retomando a pergunta de Paulo que não saía de minha cabeça, entendo que agora estamos todos isolados. Diferente do vírus do Zika, este sim por seu caráter menos “seletivo”, tornou-se uma ameaça global e fez de todos reféns, ainda que sejamos afetados por ele, evidentemente, de forma desigual. Em uma perspectiva mais otimista, essa seja talvez nossa chance, enquanto humanidade de “pôr o rabo entre as pernas” e aprender com aqueles que sempre tiveram consciência de seus muitos “isolamentos” sobre como é difícil arranjar o cuidado quando ele é visto enquanto algo tão pequeno diante do mundo e suas outras demandas, sempre mais urgentes.

Bibliografia

BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

DINIZ Débora. Zika: do sertão nordestino à ameaça global. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2016.

MOL, Anemmarie . “Care: putting practice in theory”. In: MOL, A.; MOSER, I.; POLS, J. Care in Practice: On Tinkering in Clinics, Homes and Farms. Amsterdam: Transcript, 2010.

hooks, bell. “Homeplace (a site of resistance)”. In: hooks, bell. Yearning: Race, Gender and Cultural Politics. Boston: South End Press, 1990.

FAZZIONI, Natália. Nascer e morrer no Complexo do Alemão: políticas de saúde e arranjos de cuidado. 2018. Tese (Doutorado em Antropologia Cultural) – Universidade Federal do Rio de janeiro, Rio de Janeiro, 2018.

_______. Situações Precárias: políticas de saúde e experiências de cuidado na favela. In: CASTRO, Rosana; ENGEL, Cíntia; MARTINS, Raysa (org.). Antropologias, saúde e contextos de crise. Brasília, DF: Sobrescrita, 2018b.

HIRATA, Helena; GUIMARÃES, Nadya. “Introdução”. Cuidado e Cuidadoras: as várias faces do trabalho do care. São Paulo: Atlas, 2012.

TRONTO, Joan. Moral boundaries: a political argument for an ethic of care. Londres: Routledge, 2009.

 

A filosofia e coronavírus, um novo fantasma que percorre o mundo

Vem aí um capitalismo mais feroz ou um comunismo renovado?

Texto de Maria Daniela Yaccar

Tradução de Clara Ramos, Victor Pimentel e Túlio Maia Franco

Texto original: https://www.pagina12.com.ar/255882-la-filosofia-y-el-coronavirus-un-nuevo-fantasma-que-recorre-

Byung-Chul Han, Judith Butler y Slavoj Zizek, tres plumas lúcidas para abordar un tema complejo. 

Slavoj Zizek atirou a primeira pedra quando escreveu que a opção depois da pandemia será “barbárie ou alguma forma de comunismo reinventado”. Byung-Chul Han o contestou: “O vírus não vencerá o capitalismo”. Outros pensadores, como Giorgio Agamben, Franco “Bifo” Berardi, Srećko Horvat, Judith Butler e Alain Badiou somam ao debate perspectivas que se valem das notícias de minuto a minuto

Já é evidente que ele está fazendo estremecer os mercados. Mas, a largo prazo, o coronavírus pode derrubar o capitalismo? O sempre rápido Slavoj Zizek acaba de publicar o que certamente é o primeiro ensaio sobre coronavírus. A tese de Pandemic! Covid-19 shakes the world (Pandemia! Covid-19 sacode o mundo) é que a atual crise sanitária desnudou as debilidades das democracias liberais e que o mundo está caminhando, então, para um efeito político positivo. “Barbárie ou alguma forma de comunismo reinventado”: esta é a dicotomia que encontra o esloveno nesse bruto e complexo cenário histórico, também inédito.

Em um contexto em que a informação satura e invade mentes e lares, pode ser saudável se inteirar de perspectivas que se valem de notícias de minuto a minuto. São vários os pensadores que analisaram a pandemia: os italianos Giorgio Agamben e Franco “Bifo” Berardi, o croata Srećko Horvat, a norte-americana Judith Butler, o francês Alain Badiou e o sul-coreano Byung Chul-Han são alguns dos que se expressaram a respeito. A pergunta pelo o que está por vir no cenário econômico mundial está quase em todos os enfoques.

O novo material de Zizek é breve, 120 páginas, disponível tanto em papel como no formato digital através da editorial OR Books. Ele caminha em sintonia com teorias explicadas em um artigo prévio para o portal RT, no qual Zizek – marxista, cinéfilo – definia a pandemia como “um golpe à Kill Bill ao sistema capitalista”, em outra de suas habituais conversações com a cultura popular. Foi um artigo que provocou ruído nas redes sociais – seria o que muitos queriam ouvir – e que desatou em uma resposta de Byung-Chul Han. “Zizek se equivoca. O vírus não vencerá o capitalismo”, sentenciou em uma coluna para o jornal El País.

Enquanto o novo fantasma percorre o mundo deixando cada vez mais mortos e infectados, em Pandemic!… Zizek expõe que um “enfoque comunista” – renovado, claro – é o modo de sair da encruzilhada.  Estados-Nação postos à serviço da defesa dos mais vulneráveis. O vírus colocou em evidência que vivíamos com outro vírus dentro de nós, naturalizado: o capitalismo. É uma oportunidade de se libertar da “tirania do mercado”. No entanto, ao mesmo tempo, o autor não é “utópico”: não crê que o conflito faça crescer a “solidariedade entre os povos”. Porque, nos dias de hoje, a solidariedade é mais “instinto de sobrevivência” e, como tal, é “racional e egoísta”.

Ressoaram “especulações que apontam a queda do comunismo na China, da mesma forma que Gorbachev disse que a tragédia de Chernobyl levou ao fim do comunismo soviético”, mas o paradoxo – sempre segundo Zizek – é esse: “O coronavírus nos obriga a reinventar o comunismo através da confiança nas pessoas e na ciência”. Os papéis da imprensa e dos governos não escapam à sua análise. Ainda que, em sua opinião, a China tenha administrado melhor o vírus do que a Itália, ele critica a ocultação de dados negativos por parte de autoridades da República Popular. Por outro lado, ataca o Reino Unido e os Estados Unidos pelo seu empenho em manter a calma dos cidadãos e em exibir o controle através da mentira. “Os meios nos lançam repetidamente a mensagem de ‘não entrem em pânico’ e, em seguida, exibem uma série de dados que nos levam necessariamente ao pânico”, questiona.

O filósofo que analisou a forma dos vasos sanitários para aproximar-se da ideologia dos países também se antecipa no que diz respeito ao impacto do coronavírus na vida cotidiana. Não seremos tão alegres nos parques, não entraremos com confiança em banheiros públicos e até teremos dilemas para tocar nossos rostos. “Não só o Estado e seus agentes que nos controlarão, também devemos aprender a nos controlar e nos disciplinar a nós mesmos”. Talvez a sensação de segurança fique reservada para a realidade virtual. No melhor dos casos, mover-se livremente em espaços abertos será, no futuro, privilégio de poucos “ultra ricos” que podem contar com suas próprias ilhas. Mas nem tudo será tão ruim: ele vislumbra o desaparecimento dos cruzeiros – “luxo obsceno” -, assim como também um freio na produção de automóveis, algo que poderia conduzir a vias alternativas de mobilidade, mais saudáveis para o planeta.

O ensaio também dá lugar ao humor e às recordações pessoais. Qualquer semelhança com a atualidade não deve ser mera coincidência. “Na minha juventude, na Iugoslávia socialista, começou a correr um rumo que dizia que não havia reservas de papel higiênico. As autoridades responderam: ‘há papel suficiente’. Surpreendentemente, a população acreditou. Contudo, um consumidor médio argumentava dessa maneira: ‘Sei que o rumor é falso, sei que há papel higiênico suficiente, mas, o que acontece se o resto das pessoas acredita que não há reservas e começa a tirar papel das lojas e causa uma escassez… Melhor comprar papel.’ Um fenômeno passado totalmente em sintonia com as recentes imagens de supermercados repletos, consumidores à beira do desespero e carrinhos com pirâmides de produtos.

 A polêmica com Byung-Chul Han

“Zizek afirma que o vírus aplicou ao capitalismo um golpe mortal e evoca um comunismo obscuro. Crê, inclusive, que o vírus poderia fazer cair o regime chinês. Ele se equivoca. Nada disso acontecerá”, respondeu Byung-Chul Han. “A emergência viral e o mundo de amanhã” (22 de março) – é assim que se intitula a coluna do pensador nascido em Seoul e radicado desde os 35 anos em Berlim. Está completo em Lobo Suelto, com tradução de Alberto Ciria. “Por trás da pandemia, o capitalismo continuará com mais pujança. A revolução viral não chegará a se realizar. Nenhum vírus é capaz de fazer a revolução”, apontou.

O autor de “A sociedade do cansaço” – que também tem uma visão crítica das desigualdades e excessos do sistema econômico capitalista – acredita que o vírus é apenas a cereja em cima do bolo. “A globalização suprime todos esses limites imunitários para dar livre acesso ao capital. Somos NÓS, PESSOAS dotadas de RAZÃO, que temos que repensar e restringir radicalmente o capitalismo destrutivo, e também nossa ilimitada e destrutiva mobilidade, para nos salvarmos, para salvar o clima e nosso belo planeta”, conclui.

Se em alguns momentos os pensamentos destes filósofos são diametralmente opostos, em certos pontos não são tão diferentes. Por fim, ainda que talvez seja bombástica a forma do polêmico Zizek de apresentar os temas, sua perspectiva não exclui o sujeito. A respeito da solidariedade, é isso o que pensa Han: “O vírus nos isola e individualiza. Não gera nenhum sentimento coletivo forte (…). A solidariedade que consiste em guardar distâncias mútuas não é uma solidariedade que permita sonhar com uma sociedade distinta, mais pacífica, mais justa. Não podemos deixar a revolução nas mãos do vírus”, adverte.

Ao comparar as medidas das nações asiáticas com as europeias, chegou à conclusão de que a “mentalidade autoritária” das primeiras gera mais obediência e que a Europa “está fracassando” na batalha: “Os fechamentos de fronteiras são evidentemente uma expressão desesperada de soberania. Mas é uma expressão de soberania em vão”. Han questionou, além disso, o modelo de controle policial baseado na vigilância digital que Pequim utilizou para encarar exitosamente a pandemia e que permitirá a China exibir “a superioridade de seu sistema com mais orgulho” e, inclusive, exportá-lo.

Zizek reapareceu e contestou com declarações ao El Mundo: “O comunismo que deveria prevalecer agora não é um sonho obscuro mas sim aquilo que já está ocorrendo. O Estado deve assumir um papel muito mais ativo”. E acrescentou: “Han disse que os países ocidentais estão reagindo de forma exagerada porque estavam acostumados a viver sem inimigos abertos e tolerantes, sem mecanismos de imunidade; portanto, quando surgiu uma ameaça real, entraram em pânico. Sério? Não está todo nosso espectro político e social impregnado de visões apocalípticas, ameaças de catástrofe ecológica, medo dos refugiados muçulmanos, defesa do pânico de nossa cultura tradicional contra o universo LGBT e a teoria de gênero? Tente fazer uma piada e você sentirá imediatamente a força da censura do politicamente correto. Há anos nossa permissividade se converteu no oposto.”

Pensamentos a partir do foco da pandemia

Outros filósofos que analisaram a pandemia para entendê-la são da Itália, cujo número de mortos e infectados aumenta exponencialmente a cada dia.  O artigo “A invenção da epidemia” (26 de fevereiro), de Giorgio Agamben, não vai tanto ao cerne do capitalismo mas contém um caráter,  que a muitos fascina, de teoria da conspiração. O autor toma como ponto de partida declarações do Conselho Nacional de Pesquisa para afirmar que o coronavírus é “uma gripe normal”. “Parece que, havendo se esgotado o terrorismo como motivo das medidas de exceção, a invenção de uma epidemia poderia oferecer um pretexto ideal para estendê-la para além  de todos os limites”, escreveu o autor da série Homo Sacer. Isto coincide com “uma necessidade real de estado de pânico coletivo”, desprendida de um “estado de temor” instalado nas consciências.

“A limitação da liberdade imposta pelos governos é aceita em nome de um desejo de segurança que tem sido induzido pelos mesmos governos que agora intervém para satisfazê-lo”, sugere. Houve quem entendeu que neste texto havia um desdém em torno do alcance da doença. O francês Jean-Luc Nancy acusou o italiano de ter tentado uma “manobra de distração” mais do que “uma reflexão política”. Por outro lado, chegando ao final de seu texto, após expressar seu desejo de que não chegue a Europa um regime policial digital similar ao chinês, Han dialoga com Agamben e o cita, uma vez que, ocorrendo tal situação, “o estado de exceção passaria a ser uma situação normal” e “o vírus haveria conseguido o que nem quisera o terrorismo islâmico conseguiu completamente”.

No dia em que a Itália superou a China em quantidade de mortes foi publicada uma espécie de crônica diária recheada com reflexões de Franco “Bifo” Berardi, disponível na página da Caja Negra Editora. O filósofo e ativista começa com citações de Burroughs e Jefferson Airplane e coloca o coronavírus como um “vírus semiótico”, como uma “fixação psicótica”. Um “biovírus que prolifera no corpo estressado da humanidade global”. Adverte que pela primeira vez ocorre uma crise que não provém de fatores financeiros ou econômicos, mas sim do corpo. “O que provoca pânico é o que escapa de nosso saber: não é conhecido pela medicina, não é conhecido pelo sistema imunológico. E o desconhecido de repente detém a máquina (…) Bloqueia o funcionamento abstrato da economia porque subtrai dela os corpos”, disse.  

 “Fazia tempo que o capitalismo se encontrava em um estado de estancamento irremediável. Mas ele seguia castigando os animais de carga que somos, para nos obrigar a seguir correndo, ainda que o crescimento tenha se convertido em uma miragem triste e impossível”, escreve Bifo no extenso e dinâmico texto. Discute com o croata Srećko Horvat, outro dos que acreditam que o COVID-19 está longe de ser uma ameaça para a economia neoliberal, uma vez que enxerga como o “ambiente perfeito” para o desenvolvimento dessa ideologia.

Mas Bifo, em sua Crônica da psicodeflação é mais precavido que Zizek.  O que para Zizek é um golpe à la Kill Bill, para Bifo é uma “detenção da máquina”. Detenção parida do esgotamento e do estresse dos corpos. Ele é mais ambíguo ao falar sobre um futuro possível, ainda que aqui também haja uma dicotomia. “Poderíamos sair dessa situação imaginando uma possibilidade que até ontem parecia impensável: redistribuição do rendimento, redução do tempo de trabalho de trabalho. Igualdade, frugalidade, abandono do paradigma do crescimento, inversão de energias sociais em investigação, em educação, em saúde. Não podemos saber como sairemos da pandemia cujas condições foram criadas pelo neoliberalismo, pelos cortes à saúde pública, pela superexploração nervosa”. Segundo o pós-deleuziano, há dois caminhos: ou saímos dessa mais “sozinhos, agressivos ou competitivos” ou “com um grande desejo de abraçar, (de) solidariedade social, contato, igualdade”. 

Se junta Alain Badiou

França acaba de estender sua quarentena até o dia 15 de Abril. Desde seu isolamento, Alain Badiou desacredita tanto do caráter “inaudito”, “novo” da epidemia atual como também do caráter de “evento fundador de uma revolução incrível”. Não obstante, a conclusão a qual chega em seu artigo “Sobre a situação epidêmica”– 21 de março, também em Lobo Suelto – é essa: “Enquanto a nós, que queremos uma mudança real nos dados políticos neste país, devemos aproveitar o interlúdio epidêmico e o confinamento, bastante necessário, para trabalhar em novas figuras políticas, no projeto de lugares, novas políticas e o progresso transnacional de uma terceira etapa do comunismo, depois disso, brilhante, em sua invenção”. De novo o comunismo, mas, esse sim, um comunismo finalmente “derrotado de sua experimentação estatal”, diferentemente do que postula Zizek. O momento exige, para o dramaturgo, filósofo e  romancista, “uma crítica próxima de qualquer ideia de que fenômenos como uma epidemia se abram por si mesmos a qualquer coisa politicamente inovadora”.  

O texto oferece uma perspectiva sobre como “um dado fundamental do mundo contemporâneo”- o acesso do capitalismo de Estado chinês a um alcance imperial – dialogou com o trânsito local entre espécies animais e humanos, que é “o ponto de origem de todo o assunto”. A “grande contradição” é que a economia é parte do mercado mundial, entretanto os poderes políticos “seguem sendo essencialmente nacionais”. Assim se sintetiza a “contradição entre economia e política” que expõe a pandemia. 

Para além das diferenças ideológicas e enfoques diversos, parece haver uma coincidência a partir da ótica filosófica: a percepção de que o vírus tira o véu daquele que estava mal e o acentua de maneira radical. Por fora de Agamben e Horvat, que traçam uma perspectiva mais distópica, no resto dos pensamentos se detecta uma oportunidade para a humanidade acreditar em algo novo. Pode adquirir o nome de comunismo renovado, comunismo em terceira etapa ou, todavia, ficar fora das coordenadas simbólicas. Voltando a Bifo, o coronavírus é “a condição de um salto de saúde mental que nenhuma predicação política poderia havia ter produzido. A igualdade voltou ao centro da cena. Vamos imaginá-la como o ponto de partida para o tempo que virá”.

O vírus da desigualdade

Aparentemente, o mundo da filosofia é um terreno machista. Uma das vozes feministas que se escutou ante a pandemia foi a de Judith Butler. Para a pós-estruturalista norte americana, o fracasso de alguns estados e regiões para se preparar antecipadamente, o reforço de política nacionais e o fechamento de fronteiras e a chegada de empresário ávidos de capitalizar o sofrimento global testemunham a “velocidade” com a qual “a desigualdade radical e a exploração capitalista encontram formas de reproduzir e fortalecer seus poderes”. 

A autora de Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade analisou a tentativa desesperada de Donald Trump de ganhar “pontos políticos” para assegurar sua reeleição através da compra dos direitos da vacina contra o coronavírus desenvolvida por uma empresa alemã.  “Imagina se a maioria das pessoas pensa que é o mercado quem deveria decidir como se desenvolve e distribui a vacina? É mesmo possível dentro de seu mundo insistir em um problema de saúde mundial que deveria transcender neste momento a racionalidade do mercado?”, se pergunta. Se pressagia um cenário de oferta distributiva em torno da vacina. Uma “distinção espúria” entre vidas para proteger e outras que ficarão à deriva. “A desigualdade social e econômica assegurará que o vírus diferencie. O vírus por si só não diferencie, mas os humanos seguramente fazemos, modelados como estamos pelos poderes  entrelaçados do nacionalismo, do racismo, da xenofobia e do capitalismo”, escreveu no artigo “O capitalismo tem seus limites”, com a data de 19 de março, originalmente publicada na Verso.

“A idéia de que poderíamos nos converter em pessoas que desejam ver um mundo em que a política de saúde esteja igualmente comprometida com todas as vidas, para desmantelar o controle do mercado sobre a atenção médica que distingue entre os dignos e aqueles que podem ser facilmente abandonados à doença e à morte, esteve brevemente vivo. Chegamos a nos entender de maneira diferente quando (Bernie) Sanders e (Elizabeth) Warren ofereceram esta outra oportunidade. Entendemos que poderíamos começar a pensar e avaliar fora dos termos que o capitalismo nos impõe”, disse Butler. A proposta de uma saúde pública e universal “revitalizou um imaginário socialista” nos Estados Unidos, “ideal” que “deve se manter vivo nos movimentos sociais” na luta a longo prazo.

“Além do colapso: três meditações sobre um possível desenlace” por Franco “Bifo” Berardi.

Tradução de Túlio Maia Franco, Victor Pimentel e Clara Ramos
Texto Original: https://conversations.e-flux.com/t/beyond-the-breakdown-three-meditations-on-a-possible-aftermath-by-franco-bifo-berardi/9727

 

Image by Istubalz
de Istubalz

De repente, o que pensamos pelos últimos cinquenta anos tem que ser repensado a partir do zero. Graças a deus (deus é um vírus?) que agora nós temos uma abundância de tempo extra, porque os velhos negócios saíram de linha.

Eu falarei sobre três diferentes assuntos. Um: o fim da história humana, que está claramente se desdobrando diante dos nossos olhos. Dois: a emancipação do capitalismo que está em curso, e/ou o iminente perigo tecno-totalitário. Três: o retorno da morte (finalmente) na cena do discurso filosófico, depois de sua longa denegação moderna, e a revitalização do corpo como dissipação.

1. Bichos
Número um: a filósofa que melhor antecipou o apocalipse viral em curso é Donna Haraway.

Em Staying with the Trouble ela sugere que o agente da evolução não é mais o Homem, o sujeito da História.

O humano está perdendo sua centralidade neste processo caótico, e nós não devemos nos desesperar por causa disso, como fazem os nostálgicos do humanismo moderno. Ao mesmo tempo, nós não devemos buscar conforto nos delírios de tecno-reparo [tecno-fix], como fazem os transhumanistas tecnomaníacos.

A história humana acabou, e os novos agentes da história são os “bichos”, nos termos de Haraway. A palavra “bicho” se refere a pequenas criaturas, pequenas e divertidas criaturas que fazem coisas estranhas, como provocar mutações. Bem: o vírus.

Burroughs fala dos vírus como agentes de mutação: mutação biológica, cultural, linguística.

Bichos não existem como indivíduos. Eles se espalham coletivamente, como um processo de proliferação.

O ano de 2020 deveria ser visto como o ano em que a história humana se dissolveu – não por causa dos seres humanos que desapareceram do planeta Terra, mas por causa do planeta Terra que, cansado da arrogância deles, lançou uma micro-campanha para destruir a Will zur Macht [Vontade de Poder] deles.

A Terra está se rebelando contra o mundo, e os agentes do planeta Terra são inundações, incêndios e sobretudo bichos.

Logo, o agente da evolução não é mais o consciente, agressivo e determinado ser humano – mas a matéria molecular, os microfluxos de incontroláveis bichos que invadem o espaço de produção, e o espaço discursivo, substituindo a História [History] por A história [Her-story], o tempo em que a Razão teleológica é substituída pelo Sensível e sensual devir caótico.

O humanismo se baseou na liberdade ontológica dos filósofos italianos do início do Renascimento identificados à ausência de determinismo teológico. O determinismo teológico acabou e o vírus tomou o lugar de um deus teológico.

O fim da subjetividade como a engrenagem do processo histórico que implica o fim do que nós chamamos de “História” com H maiúsculo, e implicou no começo de um processo pelo qual a consciência teológica é substituída por múltiplas estratégias de proliferação.

A proliferação, o espalhamento do processo molecular, substituiu a história como um projeto macro.

Pensamento, arte e política não são mais vistos como projetos de totalização (Totalizierung, no sentido de Hegel), mas como processos de proliferação sem totalidade.

2. Utilidade
Após quarenta anos de aceleração neoliberal, a corrida do capitalismo financeiro caiu por terra. Um, dois, três meses de bloqueio global, uma longa interrupção do processo de produção e da circulação global de pessoas e bens, um longo período de isolamento, a tragédia da pandemia… tudo isso quebrará a dinâmica capitalista de uma maneira que pode ser irremediável, irreversível. Os poderes que gerem o capitalismo global no nível político e financeiro estão tentando desesperadamente salvar a economia, injetando quantias enormes de dinheiro nela. Bilhões, bilhões de bilhões… figuras, números que agora tendem a significar: zero.
De repente dinheiro não significa nada, ou muito pouco.
Por que você irá dar dinheiro a um corpo morto? Você pode reviver o corpo da economia global injetando dinheiro nele? Não. O ponto é que ambos os lados da oferta e da demanda estão imunes ao estímulo monetário, porque a queda não está acontecendo por razões financeiras (como em 2008), mas por causa do colapso dos corpos, e os corpos não tem nada a ver com o estímulo financeiro.

Nós estamos passando o limite que nos leva além do círculo trabalho-dinheiro-consumo.
Quando, um dia, o corpo sairá do confinamento da quarentena, o problema não será rebalancear a relação entre tempo, trabalho e dinheiro, rebalanceando assim dívida e reembolso. A União Européia tem sido fraturada e enfraquecida pela sua obsessão com dívida e balanço, mas as pessoas estão morrendo, os hospitais estão ficando sem respiradores, os médicos estão sobrecarregados por fadiga, angústia e medo da infecção.

Agora isto não pode ser mudado pelo dinheiro, porque dinheiro não é o problema. O problema é: quais são suas necessidades concretas? O que é útil [useful] para a vida humana, para a coletividade, para a terapia?

O valor de uso, há muito expelido do campo econômico, está de volta, e agora a utilidade [useful] é a rainha.

O dinheiro não pode comprar vacinas que nós não temos, não pode comprar máscaras protetoras que não foram produzidas, não pode comprar centros de tratamento intensivo que foram destruídos pela reforma neoliberal no sistema de saúde da Europa. Não, o dinheiro não pode comprar aquilo que não existe. Apenas o conhecimento, apenas o trabalho da inteligência pode comprar aquilo que não existe.
Portanto, o dinheiro é impotente agora. Apenas a solidariedade social e a inteligência científica estão vivas e elas podem se tornar politicamente poderosas. Isto é o porquê de eu achar que, ao final da quarentena global, nós não retornaremos ao normal. O normal nunca retornará. O que acontecerá no desenlace não foi ainda determinado e não é previsível.

Nós encaramos duas alternativas políticas: ou um sistema tecno-totalitário irá relançar a economia capitalista por meios violentos ou a liberação da atividade humana da abstração capitalista e a criação de uma sociedade molecular baseada na utilidade [usefulness].

O governo chinês já está experimentando em uma escala massiva o capitalismo tecno-totalitário. Esta solução tecno-totalitária, antecipada pela abolição provisória da liberdade individual, pode se tornar o sistema dominante da época por vir, como Agamben apontou corretamente em seus recentes textos controversos.

Mas o que Agamben diz é apenas uma descrição óbvia da emergência presente e do futuro provável. Eu quero ir além do provável, porque o possível é mais interessante para mim. E o possível está contido no colapso da abstração, e no retorno dramático do corpo concreto como um portador de necessidades concretas.

A utilidade [useful] está de volta ao campo social. Utilidade, há muito esquecida e denegada pelo processo de valorização abstrata do capitalismo, é agora a rainha da cena.
O céu está claro nestes dias de quarentena, a atmosfera está livre de partículas poluentes, já que as fábricas estão fechadas e os carros não podem circular. Nós voltaremos à economia extrativa poluente? Nós voltaremos ao frenesi normal da destruição por acumulação e à aceleração útil pelo bem do valor de troca? Não, nós precisamos ir em frente em direção à criação de uma sociedade baseada na produção da utilidade [useful].

O que precisamos fazer agora? Agora, imediatamente agora, nós precisamos de uma vacina contra a doença, precisamos de máscaras protetoras e precisamos de equipamentos de cuidado intensivo. E a longo prazo nós precisamos de comida, precisamos de afecção e prazer. E de uma nova cultura da ternura, solidariedade e frugalidade.
O que resta do poder capitalista tentará impor um sistema tecno-totalitário de controle da sociedade – isto é óbvio. Mas a alternativa está aqui e agora: uma sociedade livre das compulsões de acumulação e crescimento econômico.

3. Prazer
O terceiro ponto sobre o qual eu gostaria de refletir é o retorno da mortalidade como a característica definidora da vida humana. O capitalismo tem sido uma tentativa fantástica de superar a morte. A acumulação é o Ersatz que substitui a morte com o valor abstrato, a continuação artificial da vida no mercado.

A mudança de uma produção industrial para o info-trabalho, a mudança da conjunção de conexão na esfera comunicacional, é o ponto final da corrida em direção à abstração, que é o principal eixo da evolução capitalista.

Em uma pandemia, a conjunção é proibida – fique em casa, não visite amigos, mantenha distância, não toque em ninguém. Uma enorme expansão do tempo gasto online está em andamento, inevitável, e todas as relações sociais – trabalho, produção, educação – estão sendo deslocadas para dentro desta esfera que proíbe a conjunção. A troca offline não é mais possível. O que acontecerá depois de semanas e meses disso?

Talvez, como Agamben prevê, nós entraremos no inferno totalitário de um estilo de vida todo-conectado. Mas um cenário diferente é possível.

E se a sobrecarga de conexões quebrar o feitiço? Quando a pandemia finalmente se dissipar (supondo que ela vá), é possível que uma nova identificação psicológica se imporá: a doença da igualdade online. Nós também temos que imaginar e criar um movimento de carinho que forçará os jovens a desligar suas telas conectadas como lembretes de um tempo solitário e temerário. Isto não significa que nós devemos voltar à fadiga física do capitalismo industrial; ao contrário, isto significa que nós devemos tomar vantagem do enriquecimento do tempo que a automação emancipa do trabalho físico e dedicar o nosso tempo para os prazeres físicos e mentais.

O espalhamento massivo da morte que nós estamos testemunhando nesta pandemia pode reativar nossa sensação do tempo como um prazer [enjoyment], ao invés de um adiamento da alegria [joy].

No fim da pandemia, ao final do longo período de isolamento, as pessoas podem simplesmente continuar se afundando no nada eterno da conexão virtual, do distanciamento e da integração tecno-totalitária. Isto é possível, até mesmo provável. Mas nós não deveríamos ser confinados pelo provável. Nós precisamos descobrir o possível escondido no presente.

Pode ser depois de meses de conectividade online constante, as pessoas sairão de suas casas e apartamentos procurando por conjunção. Um movimento de ternura e solidariedade pode surgir, levando as pessoas em direção à emancipação da ditadura conectiva.

A morte está de volta ao centro da paisagem: a mortalidade, há muito denegada, que faz dos humanos vivos.

A visita da vacina: entre violências e cuidados

As fotos deste ensaio registram um dia na rotina de profissionais de saúde durante uma campanha de vacinação, no final de maio de 2017, no Complexo do Alemão, conjunto de favelas na zona norte da cidade do Rio de Janeiro – mais especificamente nas áreas conhecidas como Areal e Morro do Alemão.

O cotidiano no Complexo do Alemão é profundamente marcado pelo conflito armado entre policiais e traficantes, o que impede ou dificulta a realização de várias atividades da unidade de saúde, sobretudo aquelas desenvolvidas no território. A vacinação da gripe, no entanto, é encarada pelos profissionais como uma tarefa inadiável em suas rotinas. Ao longo do caminho entre as casas, a equipe é sempre confrontada por pessoas que perguntam se seu “remédio já chegou” ou se sua “equipe já recebeu um médico para atendê-los”. O ano de 2017 foi também desastroso na gestão pública, marcado pela falta de medicamentos e atrasos salariais, situação que vem se estendendo até os dias de hoje.

2 9 8

Não é somente isso, no entanto, que estas imagens procuram mostrar. Busca-se evidenciar, através delas, a vida transcorrendo em uma manhã de terça-feira no Complexo do Alemão. Assim, nas fotos vemos uma família acordando para a vacina que será aplicada na avó já com a saúde bastante debilitada, um galo canta do alto de uma laje, um marido se preocupa com a vacina da mulher adoentada, uma senhora é pega de surpresa usando toca de banho ao ser recebida pela equipe, meninos brincam na rua, os profissionais tiram uma “selfie” para registrar a visita, ganham um cafezinho de graça do dono da padaria e seguem até a última casa registrada para vacinação, já quase na hora do almoço.

6  5

A visita da vacina – uma alusão evidente à Revolta da Vacina, que teve lugar nessa mesma cidade mais de um século atrás – torna-se um acontecimento que desvela elementos importantes sobre a condição de vida da população moradora de favelas no Rio de Janeiro. Ela nos revela um encontro entre a “biopolítica” do estado de bem-estar social (Foucault, 1979), fazendo viver os pacientes vacinados, à vida banalmente matável desta população, alvo do conflito armado e da violência urbana em diversos níveis, apontando para a existência de algo ainda mais perverso do que o fazer viver e o deixar morrer: um “mundo de morte”, nos termos propostos por Achile Mbembe (2016), onde a “necropolítica” é a norma e a vida está dominada por seu poder. 

7

Assim, ao escolher retratar um território tão marcado e reconhecido pela violência a partir dessas imagens – que revelam cuidado, carinho, preocupação, brincadeira, descanso e vida – procura-se também enfrentar uma disputa imagética, urgente e necessária, no sentido de alterar os “enquadramentos”  (Butler, 2015) possíveis destes espaços e das pessoas que nele vivem.

Agradeço, finalmente, aos profissionais de saúde Arlindo, Zilma e Robson que me permitiram acompanhá-los nesse dia de trabalho e autorizaram a exibição das fotografias. E também a todos os trabalhadores da saúde que me auxiliaram ao longo da pesquisa, pelo trabalho incansável que realizam.

4    3     1

REFERÊNCIAS :

BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.  

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

MBEMBE, Achile. “Necropolítica”. Revista Artes & Ensaios, n. 32, 2016.

Natália Fazzioni é Doutora em Antropologia Cultural pelo PPGSA/IFCS (UFRJ, 2018), mestre em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP, 2012) e graduada em Ciências Sociais, licenciatura e bacharelado com habilitação em Antropologia, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp, 2009). Possui experiência em pesquisa e docência, atuando principalmente nos seguintes temas: saúde, cuidado, cidades e políticas públicas. Atualmente, é pós-doutoranda vinculada ao Laboratório de Comunicação e Saúde (ICICT/Fiocruz). Realizou pesquisa de campo com profissionais da atenção primária à saúde no Complexo do Alemão entre 2015 e 2017. Mais sobre as reflexões apresentadas aqui podem ser encontradas no artigo no link: http://www.revistas.uff.br/index.php/antropolitica/article/view/676

YEARS AND YEARS: O FUTURO JÁ CHEGOU? (Clara Ramos e Victor Pimentel)

 

 

Resultado de imagem para years and years

A rápida e dramática disseminação do coronavírus traz mais uma crise à pauta do dia. As medidas de segurança e precaução contra a propagação do Covid-19 – isolamento social, fechamento de bares e shoppings, cancelamento de eventos culturais e acadêmicos diversos, etc. – assustam e materializam a sensação de estarmos vivendo um tempo radicalmente diferente daquele que existia em um passado muito recente (no início do ano, por exemplo).

Se decidirmos seguir nessa direção na linha do tempo a comparação com o momento atual se torna cada vez mais esquisita e interessante. A título de exemplo, pensemos no ano de 2010. Historicamente, dez anos é pouco tempo, certo? Sim, mas é curioso pensar que há uma década atrás não existia WhatsApp, o Instagram estava engatinhando e o Facebook começava a despontar como uma poderosa rede social. Provavelmente a quantidade e variedade de smartphones no mercado também era assombrosamente menor do que nos dias de hoje, sem falar no fato de que Netflix e Spotify eram palavras totalmente desconhecidas do grande público. E isso porque estamos falando apenas de uma pequena parcela da esfera tecnológica, cujas mudanças impactam profundamente outros campos da nossa realidade social.

O que queremos dizer é algo já bem trabalhado por diversos pensadores: parece que, ano após ano, a nossa experiência do tempo presente se torna cada vez mais acelerada, dispersa, fragmentada. É difícil elaborar, refletir e analisar o grande número de modificações e acontecimentos que acometem o nosso tempo, profundamente marcado por uma variedade de crises permanentes (ambiental, política, etc.).

A partir de reflexões semelhantes, dois pesquisadores do nosso laboratório – Clara Ramos e Victor Pimentel – decidiram escrever um texto curto analisando a série “Years and Years”, fruto de uma parceria entre a HBO e a BBC. O argumento principal dos autores é que, por tratar de maneira um pouco mais “realista” alguns dos vários problemas fundamentais de nossa época (como o incremento das tecnologias de comunicação, as dramáticas modificações laborais, o aprofundamento da crise dos refugiados, a agudização das questões climáticas, etc.), a série representa um conteúdo audiovisual de relevante potencial analítico. Assim, a ideia dos autores é realizar uma espécie de “movimento duplo”: comentar trechos da série à luz de algumas reflexões de pensadores críticos e ler as mesmas reflexões com as lentes fornecidas pela trama da série. Além disso, Clara e Victor também esperam, com o texto, contribuir na sugestão de indicações de leituras e interpretações para aqueles que também se interessam pelos temas abordados. Para ler o texto integralmente, basta acessar a aba “Publicações” e procurar pelos nomes dos autores.

Por último, quem avisa, amigo é – o texto contém pequenos spoilers de “Years and Years”.

Clara Ramos e Victor Pimentel são graduandos em Ciências Sociais pelo IFCS (UFRJ) e membros do LEIC. Possuem interesses distintos, variando desde a sociologia do trabalho até as possíveis interfaces entre antropologia e psicanálise.

ATOS DE FALA E ESCUTA ENTRE MEMBROS DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS DO RIO DE JANEIRO: UMA ANÁLISE PRELIMINAR DA PRÁTICA DAS PARTILHAS (Mariana da Fonte)

Olá, pessoal! Retomamos o blog do LEIC com a publicação do texto “Atos de fala e escuta entre membros de alcoólicos anônimos do Rio de Janeiro: uma análise preliminar da prática das partilhas”, de autoria da Mariana da Fonte.

Membro do LEIC, a pesquisadora apresentou este trabalho no nosso III Seminário, que ocorreu em dezembro de 2018 no IFCS/UFRJ. O texto analisa as partilhas (termo nativo para designar o momento em que um membro de AA compartilha suas
experiências com o álcool e suas dificuldades em torno da recuperação) como uma prática que possibilita ao alcoólico voltar-se para si, conhecer a si mesmo, explorar suas emoções e refletir acerca de uma nova maneira de ser e estar no mundo. Para ler o texto integralmente, basta acessar a aba “Publicações” e procurar pelo nome da autora.

Blog do LEIC - Mariana
Foto extraída da matéria “AA: há 66 anos, anônimos no Brasil contam como foram salvos do alcoolismo para salvar outros” (Jornal Extra, 06/09/15)

Mariana da Fonte é doutoranda do PPGSA e em sua dissertação de mestrado analisou o processo a que deu o nome de “aposta na vida”, empreendido por membros do grupo de ajuda mútua Alcoólicos Anônimos (AA), da cidade do Rio de Janeiro.
Por meio da observação participante em três grupos, localizados na Zona Sul da cidade, e da realização de entrevistas com seus membros, Mariana examina tal processo de modo a explicitar suas particularidades e sua relação com a construção de um novo estilo de vida articulado pelos membros.